domingo, 30 de agosto de 2009

É bom estarmos juntos!

Cheguei há poucos dias de Angola, de uma missão que sinto sempre que não terminou. Dou comigo a não conseguir "descolar-me" dos horários que fazia lá e encontro-me em muitos momentos a pensar nas pessoas de lá e nas de cá que estiveram lá comigo, naquele pôr-do-sol e, sobretudo, dou comigo a pensar na missão que ainda é preciso continuar a fazer.
E ao pensar nisso, penso sempre em pessoas. Raramente penso em edifícios que é preciso construir ou nos bens materiais que lá são necessários... Mas penso muito nas pessoas. Nos sorrisos e nas alegrias, nas lágrimas e nas dores...
E não penso só nas pessoas de Nambuangongo. Eu fui a Angola com a Alexandra e o Serafim, mas isso só foi possível porque um grupo de muitos mais missionários se esforçou durante todo o ano para que isso fosse possível. Alguns deles estão nesta fotografia, mas há outros.
E, num tempo em que ouvimos dizer tanta coisa sobre os jovens: que não têm objectivos, que são egoístas, que não têm nada para dar, que são irresponsáveis, eu olho para estes e digo que não. Não é assim! Os jovens têm muito para dar e estão empenhados em construir o mundo. Estes que eu conheço estão! Por isso devem existir muitos mais por aí.
Amigos, obrigado pelas horas gastas a trabalhar, pelas manhãs em que acordaram cedo, pelas sextas e sábados em que não saíram à noite, pelos fins-de-semana em que não foram para a praia ou para a neve, pelo tempo em que não estudaram, pelo tempo em que não namoraram e pelas muitas noites mais curtas de sono... Obrigado por terem dito sim a um projecto que é maior do que qualquer um dos projectos que possamos construir sozinhos. Obrigado por ajudarem a construir Nambuangongo.
No céu, seremos julgados pelo Amor.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Um único programa



"Quando se vive o Amor, quando se realiza o Amor, quando se faz ver o Amor em cada uma das circunstâncias, então faz-se ver a Deus. Este não é um mero programa abstracto, é um programa de vida. É bom que deis muita importância ao testemunho, porque cada um destes testemunhos leva consigo a confirmação deste programa. E importa que o programa esteja mais escrito em testemunhos, em experiências vividas, do que no papel ou nas teorias."
João Paulo II


Ontem estive na Jornada Diocesana da Juventude em Carcavelos. Foi óptimo ver tantos jovens que tiveram a coragem de escolher um programa que rivalizava com tantos outros como o Dia da Mãe, ou o sol que convidava para passar o dia a “dourar” na praia.
Não eram demasiados, não… Às vezes isso atrapalha o nosso julgamento das coisas e ouvimos comentários apressados e, talvez, pouco reflectidos que dizem que não correu muito bem precisamente porque não garantiu o factor “quantidade”. Se quiséssemos “quantidade” teríamos de convidar uma estrela do momento para “padrinho/madrinha” do nosso “evento”. Como a Corrida das Mulheres que estava a acontecer ali ao lado e que foi apadrinhada pelo Tony Carreira. Sucesso garantido! Quantidade assegurada!
A nossa “estrela” é de outra ordem. E os indicadores do sucesso não se conseguem medir… pelo menos com olhos humanos… É que se trata aqui de algo que nos ultrapassa. Nós preparamo-lo, nós fazemos os possíveis para que resulte em todos os aspectos, mas não somos nós que damos o essencial… Esperamos recebê-LO, esperamos encontrá-LO, esperamos acolhê-LO…
Ontem, quando me preparava para dormir, lembrei-me de ir reler esta mensagem do Papa João Paulo II, de que gosto muito. O Amor como programa de vida... É que ontem foi também o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. E isso tem tudo a ver com este programa.
Fazemos tantos planos, gastamo-nos em busca de tantos sucessos e procuramos tantos “padrinhos” que nos ajudem a garanti-lo, que muitas vezes nos esquecemos que há um programa de vida que suplanta tudo isto. Um programa de vida que se ri de todos os planos que fazemos e onde muitas vezes nos gastamos até à exaustão pensando encontrar neles a felicidade. Planos que colocamos à frente de tudo e de todos...
Pois bem, ontem algumas centenas de jovens, em Carcavelos, sabiam que só existe um programa de vida capaz de nos fazer felizes. Ontem, muitos milhares de homens e mulheres em todo o mundo, sabiam que só na vida entregue por Amor, se ganha uma vida transbordante de felicidade.
Temos que ousar assumir este AMOR como programa de vida. E só então poderemos dizer como diziam os jovens com quem estive ontem:
COLOCAMOS A NOSSA ESPERANÇA NO DEUS VIVO.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Fica, irmão Hugo!



Estive há pouco a revisitar o diário que escrevi quando estive pela primeira vez em missão em Nambuangongo...
Demorei-me na página que descreve o dia 11 de Agosto. Lembro-me como se tudo estivesse a acontecer neste momento. Estávamos a fazer os preparativos para a Festa da Senhora da Assunção que seria no dia 15 de Agosto e que coincidia com a nossa despedida da aldeia de Ngombe. Eu estava a escrever sentado à mesa e os dois padres que nos acompanhavam estavam sentados na rua a conversar.
Nisto chega o Lopes. O Lopes é um rapaz que ainda não devia ter 10 anos. Nunca tinha saído de perto de nós, como todas as crianças da aldeia com quem brincámos, rezámos, estudámos... Só que o Lopes vinha sempre à missa das 6h da manhã e, à tardinha, olhava muito atento para a forma como as contas do terço deslizavam entre os meus dedos... Para mim o Lopes era mais um miúdo, entre tantos que reclamavam a minha atenção.
Mas o que aconteceu neste dia fez com que nunca mais o esquecesse. Quem me conhece sabe que eu não sou de ficar sem palavras. Mas o Lopes deixou-me sem nenhumas.
Aproximou-se da casa que tinha a porta aberta e ouvi-o perguntar aos padres:
- Padre Daniel, é verdade que vocês vão embora no Domingo? - O Padre Daniel respondeu que sim. Ele disse:
- E o irmão Hugo também vai? - Depois de uma outra resposta afirmativa, replicou.
- O irmão Hugo não pode ficar? Eu gostava que ele ficasse.
Então o Padre Daniel, sabendo que eu estaria a ouvir, disse-lhe:
- Então tens de pedir isso ao Hugo. Ele está lá dentro.
Fiquei paralisado ao ouvir isto e durante os poucos segundos que o Lopes demorou a chegar ao pé de mim. Sempre muito sereno, educado, contido... E disse:
- Irmão Hugo?... É verdade que vai embora no Domingo?
Eu respondi que sim. Ele:
- Não vá, irmão Hugo. Tem de ficar!
Eu expliquei que não podia, que tinha família, compromissos à minha espera, mas para ele todos os problemas eram pequenos:
- Fica! Nós construímos uma casa... - E ficou a olhar para mim.
Eu não soube dizer mais nada. Ainda hoje não sei bem o que poderia ter dito. E nem sequer sei o que levou aquele miúdo a pedir-me que ficasse. Mas desde esse momento que Nambuangongo tem um rosto muito particular, com uns olhos negros aonde eu sei que caberia o mundo todo.
Não é esse o único motivo que me leva a Nambuangongo. Mas foi esse que hoje quis partilhar convosco.
Já sabem que se querem apoiar o nosso Projecto, é só dizerem!
Tuala Kumoxi!