terça-feira, 4 de abril de 2006

O segredo



Existem, na minha vida, duas pessoas que, cada uma à sua maneira e até inesperadamente, me ensinam muito sobre a vida. Vou chamar-lhes Ana e Miguel.
A Ana e o Miguel têm cancro.
E por que é que estou a contar esta história no meu blog? Porque estas duas pessoas são extraordinárias na forma como enfrentam a sua doença... Aceitam-na, lutam contra ela sem se culparem ou sem se perguntarem que mal terão feito a Deus e fazendo dessa doença uma possibilidade de crescerem interiormente e de tornarem possível que os outros à sua volta também cresçam.
Eu não tenho pena da Ana e do Miguel... E ainda bem que eles também não querem que tenham pena deles. Porque ter pena é quase como desistir...
Gosto de os comparar com as árvores... se olharmos uma árvore sem mais, vemos o tronco, os ramos, as folhas e os frutos se os tiver... Com as estações essas partes visíveis sofrem alterações e por vezes apresentam-se nús, secos, como se no devir do tempo se fossem deteriorando gradualmente... Mas as árvores são muito mais do que isso... Porque fincam as raízes profundamente na terra de onde lhes vem o alimento e daí retiram o necessário para, na estação seguinte, o nú, o seco, o aparentemente morto, dar lugar ao esplendor das folhas, das flores, do fruto e da vida que brota da árvore e que ela permite que aconteça no ecossistema à sua volta. As árvores são, afinal, muito mais complexas...
A Ana e o Miguel são assim. Sabem onde devem firmar a sua raiz, sabem sobre que rocha é preciso construir a sua casa e permanecem firmes nisso.
Porque sabem que a vida é mais forte do que a morte.

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

A marca


"Nesse dia não te esperava
Entraste no meu coração
Sem eu to pedir
Ó meu rei
Como um desconhecido qualquer

E puseste o teu selo de eternidade
nos instantes fugazes da minha vida
"




Hoje, tinha este poema na caixa de email. Enviou-mo um amigo que aprendeu a ver para além das letras garrafais do lado sensacionalista da vida e se detém a ler nas letras pequeninas do rodapé, onde se esconde, muitas vezes, o essencial. Um amigo que sabe que à vida sucede mais Vida e que todos os momentos convergem para um Momento. Um amigo marcado. Para a eternidade.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

A árvore da vida



Ao Sr. Pereira,
no culminar dos seus 93 anos

A grande árvore pôs-se a pensar. Dava-lhe sempre para pensar enquanto a sua folhagem era sacudida pela música dos dias bonitos: o esplendor do sol, o som da água do riacho próximo, o assobio discreto da brisa que trazia consigo os aromas de cenários longínquos... Sentia-se bem. Sentia-se muito bem. Vivera já muitos anos e habituara-se a ver outras árvores crescerem na sua sombra.
Era uma grande árvore. A maior das redondezas. Por vezes, olhava para trás, na imensidão do tempo, e tentava perceber como tudo começara. Não sabia como tinha chegado ali: podia ter sido plantada pelos homens ou trazida de longe, ainda semente, no bico de algum pássaro... podia ter acontecido de muitas formas, mas gostava de alimentar a ideia de que tinha vindo à boleia do vento, por entre vales e montanhas escarpadas, enfrentando obstáculos e dificuldades e escolhendo aquele bocadinho de terra, bem no alto da colina, para se deixar cair. Era uma semente cheia de força de vontade! Tratou logo de se agarrar à terra o mais que pôde e sempre sonhou crescer o suficiente para conseguir ver o mar.
Todos os dias surgiam como se fossem um sempre novo e espectacular concerto: o sol, que surgia muito de mansinho no horizonte; as flores que começavam a pintar as suas pétalas bem cedo, para se revelarem em todo o seu esplendor à luz do dia; a água do riacho, que saltitava de pedra em pedra, como que a saborear a novidade da manhã... Ela também cuidava todas as manhãs da sua folhagem. Deixava cair as folhas velhas e secas, retocava o tom de cada uma das que mantinha e deixava-se ficar à espera. Era sempre o melhor momento do dia! Sabia que, assim que a sua frondosa folhagem fosse tocada pelos raios do sol, explodiria num fogo-de-artíficio de tons de verde e reflexos brilhantes. Era feliz. Sentia-se viva.
Parecia que todo o Mundo girava em seu redor. As aves escolhiam os seus ramos longos e fortes para aí construírem os seus ninhos e ela sentia-se muito orgulhosa por poder testemunhar e servir de cenário aos primeiros dias de vida de inúmeros passarinhos que lhe acenavam, como que a agradecer, sempre que, já adultos, passavam por perto. Os seus frutos eram os mais apreciados das redondezas e era a sua sombra a que as crianças preferiam para brincar.
O tempo foi passando e a árvore foi ficando cada vez mais velha... as suas folhas perderam o brilho da juventude, os seus ramos estavam já mais fracos e quebradiços e os frutos eram em muito menor quantidade do que noutros tempos. Sentia-se fraca e temia deixar desapontados todos os que durante a sua vida, de alguma maneira, dependeram dela. Sentia-se morrer e não queria levar consigo a vida que a tantos ajudara a viver.
Até que uma bela manhã a árvore desfrutou do seu último grande concerto e, logo depois da explosão de cor das folhas, agora escassas, amarelas e ressequidas fechou os olhos e rendeu-se, triste, à inevitabilidade do desaparecimento da sua vida. Era o fim. Sabia-o quando morreu.
Não viveu o suficiente para ver a força de vontade da última das suas sementes, que aproveitou o sopro de despedida do vento e se deixou cair na terra a pouco mais de um metro do seu imponente tronco...