sexta-feira, 12 de abril de 2013

SEM FAMA E SEM NOME


Era uma vez um burro. Um burro sem fama e sem nome, daqueles a quem chamamos simplesmente «burro» quando nos referimos a ele.

Esse burro sem fama e sem nome vivia uma vida anónima e pertencia a uma família de lavradores que o utilizavam nas suas deslocações, no seu trabalho e no transporte de mercadorias e lenha.

A vida desse burro, era uma vida igual à de tantos outros burros do seu tempo. Quando não estava a trabalhar, deixavam-no amarrado num pequeno quintal de onde conseguia ver pouco mais do que a encosta seca onde fora construída a casa dos seus donos. E pensava muitas vezes como era monótona a sua vida de burro, sem fama e sem nome.

Um dia, estava ele a descansar à sombra de um sicómoro no quintal dos seus donos, quando uns homens entraram no quintal e desataram a corda que o amarrava com a intenção de o levarem. O dono ainda correra a averiguar o que se passava, mas pareceu ter ficado satisfeito com a resposta estranha que lhe deram: «O Mestre precisa dele».

Sem perceber nada, o burro lá foi com a esperança de estar envolvido numa grande aventura. Em seguida, os homens deitaram-lhe por cima as suas capas, como ele já tinha visto fazer com os elegantes cavalos dos grandes senhores que passavam na estrada poeirenta que conduzia à cidade e o burro, sem fama e sem nome, começou a imaginar o que pensariam agora os seus donos (os mesmos que nunca lhe tinham dado grande atenção), se o vissem assim vestido, à maneira dos cavalos que serviam a nobreza.

Quase nem notou que fizeram subir para a sua garupa, um homem a quem todos chamavam Jesus, e lá se deixou conduzir para a entrada da cidade como quem finalmente toma posse do seu destino dourado. À sua passagem, os homens deitavam as capas por terra para que lhes passasse por cima, as crianças e as mulheres agitavam no ar ramos de palmeira e até as árvores pareciam inclinar-se ligeiramente como que a saudar a sua passagem. Ouviam-se aplausos e a multidão gritava: «Hossana ao Filho de David!»

E o burro, outrora sem fama e sem nome, pensou: «Agora sim! Agora sou tratado como eu mereço. Os meus donos mantinham-me fechado naquele quintal apertado, forçavam-me a transportá-los e a trabalhar e nunca me deram o devido valor. Esta multidão, finalmente, está a dar-me o que eu mereço. Eu devo ser mesmo importante para eles, senão não me saudariam desta forma.» E esforçava-se por adoptar uma postura correspondente com a sua nova dignidade, alongando o mais que podia o atarracado pescoço.

Quando o cortejo, finalmente, chegou ao seu destino, o burro reparou no homem que viajava no seu dorso e a quem todos chamavam Jesus e ficou muito intrigado quando percebeu que todos os que o seguiam e o aclamavam durante o pequeno percurso até à cidade, lhe voltaram as costas assim que esse homem desmontou e começou a caminhar pelo meio da gente.

E ninguém olhou sequer para trás quando o puxaram pela corda e o levaram de volta para o quintal dos seus donos. Sem perceber nada, o burro lá voltou à sua vida de sempre, sem fama e sem nome.

Hugo Gonçalves, 2013

terça-feira, 3 de abril de 2012

O estandarte da cruz


Cruz do Mosaico da Ábside
da Basílica de São Clemente em Roma

O estandarte da Cruz proclama ao mundo
A morte de Jesus e a sua glória,

Porque o autor de todo o universo
Contemplamos suspenso do madeiro.


Com um golpe de lança trespassado,
Ficou aberto o Coração de Cristo,
Manando sangue e água como rio,
Para lavar os crimes deste mundo.


Ó árvore fecunda e refulgente,
Ornada com a túnica real,
Sois tálamo, sois trono e sois altar,
Para o corpo chagado e glorioso.


Ó Cruz bendita, só tu nos abriste
Os braços de Jesus, o Redentor,
Balança do resgate que arrancaste
Nossas almas das mãos do inimigo.


Cruz do Senhor, és única esperança,
No tempo da tristeza e da Paixão.
Aumenta nos cristãos a luz da fé,
Sê para os homens o sinal da paz.


Este hino, um dos mais belos cantos à Cruz e à Paixão do Senhor, é uma adaptação para português, feita pelo poeta Fernando Melro, a partir do hino Vexilla Regis (Os estandartes do Rei). Este hino, foi escrito por Venâncio Fortunato, Bispo de Poitiers, e foi cantado pela primeira vez no dia 19 de Novembro de 569, na procissão que levou uma relíquia da Santa Cruz, oferecida pelo Imperador Bizantino Justino II,  de Tours para o Mosteiro da Santa Cruz de Poitiers.

O seu uso litúrgico original, no Missal Romano, era o momento em que, na Sexta-Feira Santa, o Santíssimo Sacramento é levado em procissão para o altar principal. No entanto, actualmente, é principalmente usado na Liturgia das Horas, em que aparece indicado como Hino de Vésperas do Sábado Antes do Domingo de Ramos até à Quinta-Feira Santa e da Festa da Exaltação da Santa Cruz (14 Setembro).

Este hino foi interpretado simbolicamente para representar o Baptismo, a Eucaristia e os outros sacramentos. Os autores antigos dizem que tal como os estandartes dos reis e dos principes do mundo, os estandartes de Cristo são a Cruz, o Flagelo, a Lança e os outros instrumentos da Paixão com os quais ele lutou contra o príncipe deste mundo e venceu.

O esplendor e triunfo da primeira quadra podem ser melhor apreciados se nos lembrarmos da ocasião em que o Hino foi cantado pela primeira vez, em que na pompa e circunstância de uma procissão em que participavam desde os mais ilustres de entre a realeza, aos mais pobres de entre os pobres, um só estandarte se destacava: a CRUZ. Como que a dizer: "Quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a Mim."

Aqui fica também a versão em latim:

Vexilla regis prodeunt,
fulget crucis mysterium,
quo carne carnis conditor
suspensus est patibulo.


Confixa clavis viscera
tendens manus, vestigia
redemptionis gratia
hic inmolata est hostia.


Quo vulneratus insuper
mucrone diro lanceae,
ut nos lavaret crimine,
manavit unda et sanguine.


Inpleta sunt quae concinit
David fideli carmine,
dicendo nationibus:
regnavit a ligno deus.


Arbor decora et fulgida,
ornata regis purpura,
electa, digno stipite
tam sancta membra tangere!


Beata cuius brachiis
pretium pependit saeculi!
statera facta est corporis
praedam tulitque Tartari.

 
Fundis aroma cortice,
vincis sapore nectare,
iucunda fructu fertili
plaudis triumpho nobili.


Salve ara, salve victima
de passionis gloria,
qua vita mortem pertulit
et morte vitam reddidit.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Das Homilias de São Bernardo, abade, em louvor da Virgem Mãe

Hom. 4, 8-9: Opera omnia, Edit. Cisterc. 4 (1966), 53-54)(Séc. XII)

Todo o mundo à espera da resposta de Maria
Ouviste, ó Virgem, a voz do Anjo: Conceberás e darás à luz um filho. Ouviste-o dizer que não será por obra de varão, mas por obra do Espírito Santo. O Anjo aguarda a resposta: é tempo de ele voltar para Deus que o enviou. Também nós, miseravelmente oprimidos por uma sentença de condenação, também nós, Senhora, esperamos a tua palavra de misericórdia.

Em tuas mãos está o preço da nossa salvação. Se consentes, seremos imediatamente libertados. Todos fomos criados pelo Verbo eterno de Deus, mas agora vemo-nos condenados à morte: a tua breve resposta pode renovar-nos e restituir-nos à vida.

Isto te suplica, ó piedosa Virgem, o pobre Adão, desterrado do paraíso com toda a sua mísera posteridade; isto te suplicam Abraão e David. Imploram-te todos os santos Patriarcas, teus antepassados, também eles retidos na região das sombras da morte. Todo o mundo, prostrado a teus pés, espera a tua resposta: da tua palavra depende a consolação dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua linhagem.

Dá, depressa, ó Virgem, a tua resposta. Responde sem demora ao Anjo, ou, para melhor dizer, ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra. Profere a tua palavra humana e concebe a divina. Diz uma palavra transitória e acolhe a Palavra eterna.

Porque demoras? Porque receias? Crê, consente e recebe. Encha-se de coragem a tua humildade e de confiança a tua modéstia. Não convém de modo algum, neste momento, que a tua simplicidade virginal esqueça a prudência. Virgem prudente, não temas neste caso a presunção, porque, embora seja louvável aliar a modéstia ao silêncio, mais necessário é, agora aliar a piedade à palavra.

Abre, ó Virgem santa, o coração à fé, os lábios ao consentimento, as entranhas ao Criador. Eis que o desejado de todas as nações está à tua porta e chama. Se te demoras e Ele passa adiante, terás então de recomeçar dolorosamente a procurar o amado da tua alma. Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela devoção, abre pelo consentimento.

Eis a serva do Senhor, disse a Virgem, faça-se em mim segundo a tua palavra.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

INVICTUS

Invictus é um pequeno poema do poeta Inglês William Ernest Henley (1849-1903).

Foi escrito em 1875 e publicado pela primeira vez em 1888.
Nelson Mandela, no dia em que comemorou 20 anos de liberdade, citou-o como fonte de inspiração durante o seu tempo na prisão. Abaixo, a versão original e uma tradução livre que encontrei num blog e que tentei aperfeiçoar...

Out of the night that covers me
black as the pit from pole to pole
I thank whatever gods may be
for my unconquerable soul

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud
Under the bludgeonings of chance
my head is bloody, but unbowed

Beyond this place of wrath and tears
looms but the horror of the shade
and yet the menace of the years
finds, and shall find me, unafraid

It matters not how strait the gate
how charged with punishments the scroll
I am the master of my fate
I am the captain of my soul

--------------------------------------------------------------------------

Do seio da noite que me cobre,
Negra como um poço, de ponta a ponta,
Eu agradeço a quaisquer deuses que existam,
Pela minha alma inconquistável.

Na cruel garra das circunstâncias,
Não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob as pancadas do acaso,
Minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.

Para lá deste lugar de ira e lágrimas
Avulta-se apenas o horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
Encontra-me, e encontrar-me-á sem medo.

Não importa quão estreito é o portão,
Quão carregado de punições o pergaminho,
Eu sou o senhor do meu destino:
Eu sou o capitão da minha alma.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Escuto


Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

Sophia de Mello Breyner Andersen

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Comunhão: chave da Missão

«Como conclusão desta mensagem anual para o Dia Mundial das Missões, desejo expressar, com particular afecto, o meu reconhecimento aos missionários e às missionárias que testemunham nos lugares mais distantes e difíceis, muitas vezes também com a vida, o advento do Reino de Deus. Para eles, que representam a vanguarda do anúncio do Evangelho, peço a amizade, a proximidade e o apoio de todos os fiéis. “Deus, (que) ama quem dá com alegria” (2Cor 9,7) vos encha de fervor espiritual e de profunda alegria.»

Este é um pequeno excerto da Mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial das Missões. Podem ler o texto completo AQUI.

sábado, 12 de junho de 2010

Liturgia e música – Um mundo de sentido(s)

Contributo a partir da obra Soli Deo Gloria, de José Paulo da Costa Antunes

Um jovem e talentoso pianista quis tocar uma das peças mais difíceis do “Catálogo dos Pássaros” de Messian. Foi o próprio compositor que um dia escreveu acerca dele dizendo: «Ele teve de se familiarizar com as paisagens e com os pássaros antes de se meter ao trabalho; ele foi de uma honestidade exemplar e o resultado é magnífico» (Messian 221). Isto faz todo o sentido e pode ser aplicado a todas as formas de arte. Imagine-se um pintor a querer exprimir o voo de uma águia sem nunca se ter ocupado de a observar deslocando-se aos locais onde elas se encontram. Por mais talentoso que fosse o pintor, faltaria verdade na sua obra. Só quem agarra as coisas por dentro e gasta tempo em fazê-las suas, pode dizê-las aos outros na sua arte.

Estas afirmações encontram um sentido ainda maior quando nos referimos à arte litúrgica, mais propriamente a música, que é o objecto do nosso estudo. Aqui é essencial, não só estar muito familiarizado com o que é a música, mas também dominar o verdadeiro sentido da liturgia e a riqueza dos vários momentos que a constituem. Aqui, liturgia e música existem porque estão a acontecer, sempre num diálogo entre alguém que chama e outro alguém que responde, entre alguém que fala e outro alguém que escuta.

Se, na liturgia, acontece o encontro entre Deus e o homem, numa relação única de amor que parte da iniciativa de Deus, que outra linguagem, que não a artística, poderia expressar melhor esse momento? O homem sempre usou das suas capacidades artísticas para manifestar o espanto, o deslumbramento e a sua surpresa perante a gratuidade do amor divino. A arte é a linguagem, por excelência, para dizer o transcendente, ela é a resposta generosa do homem que não pode permanecer calado perante Deus que, assim, o interpela.

Olhando as coisas deste modo, podemos dizer que a música tem, na liturgia, um papel fundamental e insubstituível. Só que, aí, há que procurar encontrar um percurso que permita que a música se realize como arte, sem no entanto esquecer que é necessário encontrar uma estética que lhe permita enquadrar-se no todo da acção celebrativa em que tem lugar.

Podemos dizer, com verdade, que é assumido que após o II Concílio do Vaticano, a música litúrgica se afirmou como sendo parte integrante, e necessária, da liturgia. O que ainda falta fazer é passar para a celebração a mudança de mentalidade e atitude que daí derivam. «Cantar na liturgia continua a ser algo que se reduz à dimensão do estético e não vai à raiz da sacramentalidade, como deveria» (José Costa Antunes).

Cantar rezando e rezar cantando deve ser o horizonte que perseguimos ao pensar a música para a liturgia. É inegável a facilidade com que a música ajuda o homem a transcender-se, mas atenção para que não seja uma melodia bem executada e, no entanto, estéril. Dizia Santo Agostinho que «cantar é próprio de quem ama».

Há-de ser, tem de ser, esse amor a fazer ecoar o canto do nosso coração.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Uma t-shirt por Nambuangongo


O Projecto Tuala Kumoxi de que faço parte desde o princípio, está a planear a próxima missão em Angola para Agosto. Os pedidos dos missionários que estão no terreno são muitos e a nossa vontade de corresponder é ainda maior!! Temos testemunhado a generosidade de muita gente que não hesita em realizar pequenos gestos que dentro da "caixinha" onde os guardamos vão acumulando e tornando possível ao nosso projecto realizar grandes gestos numa terra algures no interior de Angola. Uma terra que todos parecem ter esquecido, mas nós não! Por isso, estamos a vender t-shirts por um preço que, admitam, não é praticamente nada. Por isso, peço-vos que comecem o vosso guarda-roupa de Verão por esta peça que, além de gira, tem um significado muito forte! Podem encomendar por mail que depois vemos como é que fazemos chegar!!
Mandem os pedidos para tualakumoxi@gmail.com (se mandarem o pedido de toda a família num só email é muito melhor!!!)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Tuala Kumoxi - Tu tens que dar um pouco mais do que tens!


O projecto Tuala Kumoxi, já tão nosso conhecido, está na última fase de preparação da viagem a Angola no próximo mês de Agosto. Estamos a planear muita actividade e bastante presença em várias aldeias onde vamos ter acções de formação. actividades de organização comunitária e, sobretudo, onde planeamos ESTAR com as pessoas o mais possível. Continuaremos com os projectos nas áreas da saúde e da alfabetização e vamos visitar o Internato do Zemba, para ver como têm evoluido as coisas e quais os próximos passos a dar...
O Padre Walter, actual pároco, lançou-nos grandes desafios, não só exigentes do ponto de vista humano, como em termos de investimento...
E nestas alturas muitas vezes sento-me a olhar para este Projecto tão além das minhas possibilidades e forças e, normalmente, encontro muitas razões para confiar. Essas razões expressam-se nas caras daqueles que encontrei em Angola e daqueles que comigo foram daqui e que aprenderam a dar-se e a vencer medos e dificuldades.
Por isso este vídeo faz todo o sentido. Junta as imagens com as palavras que eu preciso de ouvir agora, sabendo que o Senhor providenciará, como aliás sempre tem feito.

Tuala Kumoxi!
http://www.tualakumoxi.110mb.com
nib: NIB: 0045 5147 402240279984 1

sábado, 3 de abril de 2010

Homilia de Sábado Santo - Séc. IV


Há dias pedi ao Nuno Fernandes que gravasse este texto para usar num retiro que orientei para o Ágape, Grupo de Jovens da Paróquia da Portela. Hoje calhou-me lê-lo na Sé Patriarcal de Lisboa, durante o Ofício de Leituras e Laudes, um dos momentos celebrativos do Tríduo Pascal. Decidi montar este pequeno vídeo para poder partilhá-lo convosco.

Este texto é, de facto, uma inspiração. Tem uma força, uma vida que está para além dele que me emocionam sempre que o leio ou escuto.

Partilho-o agora convosco, na voz do Nuno Fernandes.

Santa Páscoa da Ressurreição do Senhor!

sexta-feira, 26 de março de 2010

De novo, Nambuangongo!



O Projecto Tuala Kumoxi já está a preparar a próxima viagem a Nambuangongo! Vai ser em Agosto que vamos voltar a encontrar aquele povo por quem temos rezado, angariado fundos e preparado projectos e iniciativas. Este ano estamos a tentar enviar quatro jovens que possam corresponder aos muitos pedidos que o novo Pároco, Padre Walter (missionário italiano) nos fez. Além dos trabalhos no Internato de Zemba, estaremos muito ocupados com acções de formação e na visita e acompanhamento das comunidades a nível local.

Há tanto trabalho para fazer lá!!
Há tanto trabalho para fazer cá, enquanto não chegamos lá...

Mas em nós persiste a firme certeza de que Deus providencia e de que não tem sido em vão que, ao longo dos últimos anos, temos investido o nosso tempo, as nossas emoções e os nossos recursos.

Nós acreditamos no povo de Nambuangongo e que é possível ajudá-lo a encontrar um sentido.

Muitas têm sido as pessoas que têm acreditado neste projecto.
Nesta fase final de preparação, temos alguma urgência e necessidade de angariar mais alguns fundos.
Pedimos a todos os nossos amigos que rezem por este Projecto e para que o Senhor, que torna todas as coisas possíveis, providencie o que ainda falta.

Se quiser ajudar-nos pode fazê-lo enviando a sua contribuição para o
NIB: 0045 5147 402240279984 1

Pode ainda pesquisar outras formas de ajudar ou mais informações em:
http://tualakumoxi.110mb.com/

segunda-feira, 8 de março de 2010

Saudades...


Estou com saudades de ir à Ópera... ao Teatro... a qualquer coisa AO VIVO...
Valha-me o YouTube... Deixo-vos uma das minhas interpretações favoritas da Rainha da Noite da Flauta Mágica do Mozart, na voz de Luciana Serra...  :)

quarta-feira, 3 de março de 2010

só a Ti...

...Em Ti, por Ti amo tudo!
Se Te vais e em vão Te chamo,
Fico cego, surdo, mudo...
Faltas-me e falta-me tudo,
Que afinal só a Ti amo!

            José Régio, Mas Deus é Grande

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Viemos procurar as fontes da Alegria

Estive no Encontro Ibérico de Taizé no Porto, um evento que substituiu a euforia do Carnaval pela busca as fontes da Alegria, aquela ALEGRIA verdadeira que provém do encontro com Cristo. Os mais cépticos poderão achar que esta é uma frase feita e gasta o quanto baste... mas não é. Os milhares de jovens, vindos um pouco de todo o lado, mas sobretudo de Portugal e Espanha, encheram o Porto de vida e alegria que não passou despercebida a ninguém. Desde as viagens no Metro e nos outros transportes públicos, à participação nos workshops e passeios organizados um pouco por toda a cidade... desde os momentos vividos nas famílias de acolhimento e nas paróquias, aos grandes momentos de concentração para a Oração Comunitária no Dragão Caixa, muitos foram os que vinham perguntar quem éramos nós, ao que vínhamos e que acreditações eram aquelas que trazíamos penduradas no pescoço... E maior do que a surpresa de nos verem, muitos surpreendia-se por sermos jovens cristãos... e por sermos tantos, num mundo onde se acredita que os jovens não querem nada de Deus e da Igreja...

Ao Porto, fomos procurar as Fontes da Alegria... e fizémo-la ressoar pelas ruas, na irreverência e descontracção que é própria dos jovens... e fizémo-la brotar no silêncio da oração, lugar de encontro e relação, de onde brota a Alegria verdadeira.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Escolher a melhor parte...

Jesus entrou numa aldeia. E uma mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. Tinha ela uma irmã, chamada Maria, a qual, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra. Marta, porém, andava atarefada com muitos serviços; e, aproximando-se, disse: «Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.» O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.» (Jo 10, 38-42)
 
Ontem, conversando com alguns amigos acerca do Natal e da luta que sentimos entre o lado consumista e o lado espiritual da época, perguntávamo-nos por que é que nós, os católicos, não conseguíamos sair do olho deste furacão que nos arrasta cada ano… E, por mais que nos esforcemos por colocar cada coisa no seu lugar, a verdade é que as caixas embrulhadas de cores vivas a soterrar a árvore de natal, a mesa cheia de comida que muitas vezes nem sabemos bem do que é feita e a corrida pela roupa da moda para celebrar esta data com estilo são coisas que não colocamos em segundo plano.
Outro aspecto é a tónica que damos ao momento que celebramos. Celebramos a vinda do Filho de Deus, o Deus feito homem para que o homem possa ser como Deus, o desejado de todas as nações que por amor vem estabelecer uma relação de Aliança com o homem, ou celebramos simplesmente uma festa da família, a paz no mundo e a harmonia sem nome? Pior que isso é reduzirmos o Natal à vinda do Pai Natal ou de uma qualquer Popota de supermercado… A verdade é que já muito poucos temos presente aquilo que, na realidade, se celebra no Natal… E os que temos, já não somos capazes de abdicar da febre global para ficarmos só com isso.
Este texto de São João, que cito no início deste post, fala por si. Por um lado a Marta inquieta e perturbada que não se detém à escuta de Jesus. Por outro, Maria, a quem nada inquieta a não serem as Suas palavras…
A Marta podemos ser nós que vivemos a correr para que tudo esteja pronto, bonito e saboroso, mas que no meio da azáfama corremos o risco de deixar escapar o essencial: o motivo de tanto trabalho. Maria, para o Senhor, foi quem escolheu a melhor parte, porque soube ao que devia deixar agarrar-se o seu coração. Maria seríamos nós sentados a contemplar o Jesus do presépio, sem nenhuma outra distracção.
O grande desafio para nós é sermos Maria sem deixarmos de ter o cuidado de Marta. A preparação da festa já é a festa. O importante é termos a correcta consciência do que celebramos. Não é normal celebrarmos conceitos, mas acontecimentos. Celebramos a VIDA, festejando na data em que alguém nasceu… Celebramos a FAMÍLIA ao festejarmos o momento em que determinada família concreta se constituiu… Celebramos a PAZ ao festejarmos um acontecimento que a produziu. Celebremos o NATAL como um acontecimento de salvação, em que Deus vem ao nosso encontro como Menino indefeso e todos os conceitos do que é verdadeiro, bom e belo terão nele o seu lugar.
Quantas vezes damos presentes sem saber a razão, queixando-nos da falta de dinheiro, da falta de merecimento de quem vai receber, da certeza de que não seremos retribuídos com algo tão bom, ou escolhido com tanto cuidado? Quantas vezes se estraga o Natal por causa destas coisas? Quantas vezes damos ou recebemos um presente de Natal e não o damos com a alegria que devia ser própria de quem dá ou recebe presentes?
Porquê? Porque não sabemos o que celebramos. Não temos outro motivo para dar presentes, a não ser receber presentes?…
Todos os anos me apetece furar o esquema da febre dos presentes. Não porque ache que não se podem dar - pelo contrário, o próprio Jesus os terá recebido de pastores e reis magos - mas os presentes que hoje damos roubam o lugar do Menino no coração de quem dá e no coração de quem recebe… Talvez se déssemos um presente a alguém como se o estivéssemos a dar a Jesus, e o recebêssemos como se o estivéssemos a receber de Jesus, o fizéssemos com mais gratuidade…
Porque o Menino de Belém fez-se dom gratuito, como todo o Amor, que só é verdadeiro se for dado como um presente de quem não espera nada em troca...

domingo, 4 de outubro de 2009

Goodbye Bafana



Goodbye Bafana, ou Mandela, meu prisioneiro, meu amigo, é o nome de um belo filme que vi hoje aqui em casa. É um filme baseado nas memórias do soldado prisional que acompanhou a detenção de Mandela durante anos. É uma bela história de conversão. Digo-o porque este soldado prisional, que era um verdadeiro adepto do Apartheid, responsável por ler toda a correspondência do líder da oposição, acaba por descobrir um homem impressionante que acaba por o levar a questionar os valores que conduziam a sua própria vida.
É um filme que mostra que o relativismo é perigoso... que facilmente se pode distorcer a verdade para justificar actos e formas de pensar que não servem essa verdade...
É um filme sobre a liberdade. E de como ela tem muito pouco a ver com estar atrás das grades ou não. Na verdade, no seu íntimo, Mandela nunca deixou de ser um homem livre.
Recomendo o filme e recomendo a sua autobiografia Longo caminho para a liberdade, que li há tempos e da qual vos deixo uma passagem notável da pena do próprio Mandela:
"Sou fundamentalmente um optimista. Se tal provém da minha natureza, ou da educação, não sei dizer. Em parte, ser optimista consiste em manter-se na direcção do sol, a caminhar para a frente. Houve muitos momentos sombrios, em que a minha fé na humanidade foi duramente posta à prova, mas não podia, nem queria, ceder ao desespero. É nesse caminho que se encontram a derrota e a morte."
...na direcção do sol...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Tenho no meu quarto estas duas pinturas em tela. Foram criadas por dois pequenos amigos que mas ofereceram num dia especial em que me visitaram aqui em casa. São eles a Mariana e o Manel, ou melhor, o ManUel porque é assim que gosta de nos corrigir quando descuidamos a pronúncia do U.
O Manuel e a Mariana são crianças muito especiais, que olham para o mundo à sua volta sempre com uma pergunta desconcertante, ou com uma observação que amplia o sentido das coisas...
Para eles eu sou o seu Haiti. E eles serão sempre a Mariana em quem reparei pela primeira vez só por causa dos sapatos vermelhos de verniz e com os quais correu, saltou obstáculos e brincou muito... tudo com uma energia que não ficava atrás dos outros que vinham equipados com os ténis do momento. A Mariana vai sempre encaixar no cenário do feiticeiro de Oz, onde eu carinhosamente a encaixei no meu imaginário. Fica-lhe tão bem esse mundo.
O Manuel é diferente! Perspicaz, decidido e inteligente. Mas igualmente carinhoso. Nunca me esqueço das missas semanais das quais não saía nunca sem antes se ter pendurado à volta do meu pescoço para me fazer perguntas nas quais eu nunca tinha pensado e quando as ouvia me parecia sempre um absurdo pensar que não poderiam ser feitas... O Manuel que pinta a Igreja dele sempre com uma luz muito forte no meio que ele diz, como tratando-se da coisa mais óbvia do mundo: não vês que é Jesus?
Há um tempo que não os vejo, mas hoje termino a minha noite a pensar neles, a olhar para as pinturas deles e sei que, daqui a pouco, vou rezar por eles.
Por eles e pelos pais deles, capazes de deixar crescer crianças tão fantásticas.
Boa noite.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Nambuangongo a 1000.

Já faz uma semana desde que voltámos de Angola. Vim sentado sozinho no avião, por isso tive muito tempo para deixar a minha cabeça voar um pouco (literalmente!). Quando as coisas ainda estão quentes a cabeça não pára de pensar em formas de fazer, em formas de chegar mais longe... E já sabem que a minha está sempre a mil! Agora aproxima-se uma nova etapa na minha formação, uma etapa da qual esta missão não é distinta, mas cada uma requer um tempo e uma disponibilidade próprias que preciso de não misturar. Porque uma e a outra são, no fundo, fruto de um encontro primeiro do qual tudo brota e no qual tudo sobrevive.
E é esse encontro que continua a pedir-me respostas que espero nunca deixar de dar. Crê, consente, recebe: assim escutei um dia...


Tuala Kumoxi.

domingo, 30 de agosto de 2009

É bom estarmos juntos!

Cheguei há poucos dias de Angola, de uma missão que sinto sempre que não terminou. Dou comigo a não conseguir "descolar-me" dos horários que fazia lá e encontro-me em muitos momentos a pensar nas pessoas de lá e nas de cá que estiveram lá comigo, naquele pôr-do-sol e, sobretudo, dou comigo a pensar na missão que ainda é preciso continuar a fazer.
E ao pensar nisso, penso sempre em pessoas. Raramente penso em edifícios que é preciso construir ou nos bens materiais que lá são necessários... Mas penso muito nas pessoas. Nos sorrisos e nas alegrias, nas lágrimas e nas dores...
E não penso só nas pessoas de Nambuangongo. Eu fui a Angola com a Alexandra e o Serafim, mas isso só foi possível porque um grupo de muitos mais missionários se esforçou durante todo o ano para que isso fosse possível. Alguns deles estão nesta fotografia, mas há outros.
E, num tempo em que ouvimos dizer tanta coisa sobre os jovens: que não têm objectivos, que são egoístas, que não têm nada para dar, que são irresponsáveis, eu olho para estes e digo que não. Não é assim! Os jovens têm muito para dar e estão empenhados em construir o mundo. Estes que eu conheço estão! Por isso devem existir muitos mais por aí.
Amigos, obrigado pelas horas gastas a trabalhar, pelas manhãs em que acordaram cedo, pelas sextas e sábados em que não saíram à noite, pelos fins-de-semana em que não foram para a praia ou para a neve, pelo tempo em que não estudaram, pelo tempo em que não namoraram e pelas muitas noites mais curtas de sono... Obrigado por terem dito sim a um projecto que é maior do que qualquer um dos projectos que possamos construir sozinhos. Obrigado por ajudarem a construir Nambuangongo.
No céu, seremos julgados pelo Amor.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Um único programa



"Quando se vive o Amor, quando se realiza o Amor, quando se faz ver o Amor em cada uma das circunstâncias, então faz-se ver a Deus. Este não é um mero programa abstracto, é um programa de vida. É bom que deis muita importância ao testemunho, porque cada um destes testemunhos leva consigo a confirmação deste programa. E importa que o programa esteja mais escrito em testemunhos, em experiências vividas, do que no papel ou nas teorias."
João Paulo II


Ontem estive na Jornada Diocesana da Juventude em Carcavelos. Foi óptimo ver tantos jovens que tiveram a coragem de escolher um programa que rivalizava com tantos outros como o Dia da Mãe, ou o sol que convidava para passar o dia a “dourar” na praia.
Não eram demasiados, não… Às vezes isso atrapalha o nosso julgamento das coisas e ouvimos comentários apressados e, talvez, pouco reflectidos que dizem que não correu muito bem precisamente porque não garantiu o factor “quantidade”. Se quiséssemos “quantidade” teríamos de convidar uma estrela do momento para “padrinho/madrinha” do nosso “evento”. Como a Corrida das Mulheres que estava a acontecer ali ao lado e que foi apadrinhada pelo Tony Carreira. Sucesso garantido! Quantidade assegurada!
A nossa “estrela” é de outra ordem. E os indicadores do sucesso não se conseguem medir… pelo menos com olhos humanos… É que se trata aqui de algo que nos ultrapassa. Nós preparamo-lo, nós fazemos os possíveis para que resulte em todos os aspectos, mas não somos nós que damos o essencial… Esperamos recebê-LO, esperamos encontrá-LO, esperamos acolhê-LO…
Ontem, quando me preparava para dormir, lembrei-me de ir reler esta mensagem do Papa João Paulo II, de que gosto muito. O Amor como programa de vida... É que ontem foi também o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. E isso tem tudo a ver com este programa.
Fazemos tantos planos, gastamo-nos em busca de tantos sucessos e procuramos tantos “padrinhos” que nos ajudem a garanti-lo, que muitas vezes nos esquecemos que há um programa de vida que suplanta tudo isto. Um programa de vida que se ri de todos os planos que fazemos e onde muitas vezes nos gastamos até à exaustão pensando encontrar neles a felicidade. Planos que colocamos à frente de tudo e de todos...
Pois bem, ontem algumas centenas de jovens, em Carcavelos, sabiam que só existe um programa de vida capaz de nos fazer felizes. Ontem, muitos milhares de homens e mulheres em todo o mundo, sabiam que só na vida entregue por Amor, se ganha uma vida transbordante de felicidade.
Temos que ousar assumir este AMOR como programa de vida. E só então poderemos dizer como diziam os jovens com quem estive ontem:
COLOCAMOS A NOSSA ESPERANÇA NO DEUS VIVO.